

É ASSIM, NÃO PODE SER DE OUTRA MANEIRA
Eva Durán Tradução de Amadeu Baptista
Oxalá pudéssemos aprender a ser felices pelo simples facto de estarmos vivos.
Oriana Fallaci
Veio-me a menstruação e estou chateada. Em dias como o de hoje, que em realidade são todos os dias da minha vida, mantenho uma relação de amor-ódio com o meu abdómen imenso e flácido. Às vezes penso, homem, não é assim tão mau, enquanto possa carregar e montar a bicicleta e ler a meu gosto tudo está bem. Uma das razões pela qual amo a vida moderna é que no fundo sou uma preguiçosa com pretensões burguesas, se fosse por mim as minhas noites, as minhas horas, os meus olhos e os meus dias só seriam ler, coçar a barriga, jogar atari, revolver as tripas do computador, torturar o gato (atirando-o ao tanque, deixando-o estrebuchar agonizante durante três ou quatro decisivos minutos), comprar o jornal, ignorar a secção económica, a secção política, os massacres do dia, submergir-me nas caricaturas, recortar delicadamente as suas margens, numerá-las, colá-las em cadernos, falar ao telefone e olhar pela janela.
- "Bem, isso está mal, filha, se não fazes um esforço não vais chegar a parte nenhuma, e vai-nos defraudar, não vais ser ninguém, não conseguirás dinheiro e não serás importante, não poderás comprar absolutamente nada, portanto serás um perigo para todos nós". Sempre pensei que o verdadeiro problema com as crianças não é que não tomem banho, nem que cheirem cola, nem faz grande diferença se fugiram de casa porque o papá lhes manuseava o entrepernas, a mamã os espetava com alfinetes, ou o avozinho punha sobre os seus lábios colheradas de malagueta. O verdadeiro conflito, o miolo (a verdade nua e crua), é que desfeiam a cidade, e além disso, são uma magnífica razão para que você e eu freqüentemos jantares de caridade, tirando dinheiro da caixa menor para tranquilizar a consciência. É que não são só feias, vulgares, mal-cheirosas, abjectas, desprezíveis, o pior de tudo é que caminham sempre à frente, estão em todos os lados. Malditas baratas repugnantes, anãs indesejáveis, carreira de tiro, cinzeiro, lixeira, cloaca, retrete, malditas, malditas. Engenhos malditos...A lei diz: Impõe a tua vontade e não fodas. Fode, mas fá-lo tão bem que os demais não tenham outra alternativa que temer-te ou respeitar-te, ou odiar-te tão intensamente que façam de ti um Deus ou um mártir. Falava do meu abdómen, o terrível em ser mulher é a pressão que te obriga a viver torturada para que a nossa aparência seja estética, como se diz?, glamorosa, mas não são glamorosos um penteado em forma de cona, as unhas por cortar, o mau odor, o sangue menstrual, as manchas solares e os pêlos na barriga das pernas, não, não e não, há que aplicar-se descolorante, depiladora, leite de limpeza, creme facial e tintura no cabelo. O meu abdómen é a minha consciência corporal, é gracioso e realmente fôfo, representa 6 ou 7 meses de gravidez no mínimo. Para dizer a verdade é uma das heranças da minha mãe. A minha bela e estúpida e masoquista mãe é realmente bela, estatura mediana, loira, um sinal no pescoço e outro em forma de dirigível na nádega esquerda. Se não fosse aquela barriga... Ela alega que é o produto de quatro gravidezes, mas bem, eu tenho igual número de abortos ( que doeram como o caralho) no meu prontuário e não é caso para tanto, ou é? desde que faço cem abdominais diários e bebo vinte e cinco copos de água, é horrível, realmente horrível. Eu sei que se fosse uma pessoa realmente importante e realmente valente não assumiria preocupações tão indignas, sei que as jantes que bamboleiam na minha cintura, as estrias, a celulite que sulca as minhas coxas como laranja mecânica, não tiram nem dão nada a ninguém. Fui magra e chupada e igualmente infeliz. Que doce apalpar o meu corpo em frente à pálida lua do armário da tia Adriana, para logo me deitar com a luz acesa para que o espectro que dormia junto a mim, e me não permitia conciliar o sono, não me atacasse de surpresa. Vigiava-me, possuía-me durante o sono, era uma massa informe, negra e gasosa, eu abandonava o meu corpo e saía a flutuar suspensa no céu liso, observando-me a mim mesma a dormir na cama, enquanto a coisa se revolvia sobre si preparando-se para abalançar-se sobre p meu pescoço. Abria os olhos e sentia a pressão na minha garganta. Os meus gritos despertavam a família, noite após noite. Assim é inútil fazer exercício como um atleta e ser anoréxica, se não posso dormir como Deus manda. Esta é apenas uma parte do problema, o cabelo caí-me às madeixas, tenho as mamas inchadas, uma dor menstrual intolerável, bronquite, catarro, gonorréia e cárie. Mas há um remédio para tudo isto, existem drogarias, lipo-sucções, odontólogos e comida para ratas. Mas não há nada, absolutamente nada que possa fazer para deixar de ser o que sou. Quem sou? Bem, sou Rodríguez, em princípio, o que dá no mesmo que ser filho dos colhões, ainda que se parta a alma à minha avó alegando e deitando mão da dignidade, do orgulho de pertencer a tão boa família. VAI À MERDA AVÓ. Antes de mais, e para que depois não digam que sou uma troca-tintas mal educada, tenho o prazer de apresentar a venerável matrona Dona Raquel Sucardi De Rodríguez. O seu casamento foi o que chamam os cronistas sociais "uma boda inolvidável". " Pelo dilúculo, a noiva empalideceu as rosas com a sua distinção louçã, e partilhou com os convidados a sua radiante felicidade, em união com o seu noivo, famoso e elegante cavalheiro de promissor futuro..." Foram (são) ompletamente desgraçados. O meu avô tem cancro da pele, está cego, neurótico. Mas claro, é uma desculpa excelente para que ela se auto-compadeça, não lhe permite aprender a valer-se por si mesmo, tem que viver para ele, para lamentar-se que lhe dói a anca, o hipotálamo e a tiróide, tem que dar banho ao marido, pôr-lhe talco Johnson nos testículos, injectá-lo, recolher pela casa toda pedaços de carne podre; educar um neto hiperactivo, vulgar e mal educado que faz partidas às meninas, e, ao mesmo tempo, permanecer composta para receber as visitas perante as quais é uma dama, digna, sacrificada, imaculada, com 12 filhos e um aborto às costas (o meu avô chegou uma madrugada bêbado com os amigos, ela tinha seis filhos varões e quatro meses de gestação, chovia, ele queria continuar a beber, a criadagem não estava, quis obrigá-la a sair para ir comprar bebida, empurrou-a pelas escadas abaixo, era uma menina, e dorme num frasco de formol, entre os pentes e a bijuteria de um armário feito à mão à quarenta e dois anos). A minha avó, sou dura com ela, e sei-o, mas uma mulher capaz de engendrar seres tão desprezíveis como os meus tios não merece nada diferente. Sentir compaixão por ela?, talvez: Se não me amam tenham pena de mim, não tenho culpa do meu marido me ter estafado, de que os meus filhos não me dêem cartões de crédito, eu fiz o que devia fazer, devia parir, ser fiel e preparar consoadas no natal, não viajei porque os meus filhos eram pequenos, não me diverti porque deviam encontrar a sua mãe ao chegarem a casa todas as noites, e quando estudavam até ao amanhecer deviam contar com um batido de amora e uma sanduíche preparada, além disso, uma mulher separada é mal vista, eu cumpri perante Deus e perante os homens, devia dar o exemplo à minha filha, devia resguardá-la dos homens, dar instrucções aos seus irmãos para que a mantivessem vigiada, porque ela é a mais nova, a consentida, e tinha que a casar bem, e para encontrar um bom marido devia ter uma boa reputação, ser educada e discreta, e a educação só a dão as freiras, porque o temor a Deus é a base de uma vida boa, e há que temê-lo e servi-lo, porque senão põe-se bravo connosco e tira-nos o dinheiro. E havia que ensinar-lhe que todos os homens são iguais, que todos a farão sofrer por igual, e que é preferível sofrer na abundância que a coser roupa a cinco ranhosos e um marido bêbado, por isso há que espantar-lhe esses namorados que arranja, que são uns medíocres-comunistas-classe-média, sim, senhor, porque a minha filha tem entre as suas pernas a honra da família e os meus filhos são uns piças loucas, mas isso está bem, para isso são homens, para isso são bonitos e estão bem alimentados e profissionais além das marcas, mas isso sim, que essas arrivistas que sobem nos seus carros que nem se benzam. Que eles vão casar com aristocratas, nem mais faltava..." É insuportável viver com a amarga verdade de onde venho. Injectaram-me o veneno muito pequena, transmitiram-me o seu sangue mau, o seu ódio, a sua desconfiança. São os seres mais hipócritas que se pode conceber, sem chegarem a ser brilhantes, religiosos até ao sofrimento. Lembro o tio Bóris, um homem sinceramente piedoso e entregue à verdade suprema, esteve sindicalizado na fraude quando ocupava um alto cargo na área administrativa do congresso da República e, consta-me,que uma das suas orações habituais é a que pede pela saúde espiritual dos que o quiseram pô-lo no lugar onde deveria estar, não porque fosse culpado, carece de iniciativa para fazer esse tipo de bons negócios, mas um homem com tão ardentes desejos de ser bom precisa de ser martirizado para alcançar a perfeição, uma respeitável temporada na cadeia modelo, uma volta pelos mais baixos labirintos da abjecção humana teriam dado à sua oração, estou segura, uma paixão infinita, a sua santa palavra ascenderia via módem aos anjos e aos arcanjos, e ele perdoaria aos seus detractores, é tão bom, tão bom filho, tão bom esposo, mas está terrível, definitiva, irremediável e eternamente morto, vermes cor-de-rosa incubam nas artérias do seu coração. No entanto, tudo nele tem uma auréola de bem-estar, os seus peidos são o acompanhamento perfeito do "eu pecador". Numa dada altura tentou instilar-me os seus preconceitos, o seu ressentimento, a sua Católica Prepotência. Mas eu nunca lhes pertenci. E é compreensível que não me perdoarão, você fá-lo-ia? Não é de todo mau crescer entre psicóticos, não só por a mamã ter o hábito de partir coisas na cabeça do papá, mas pelas discussões catastróficas que estremeciam as paredes e provocavam os cochichos dos criados e eram protagonizadas indistintamente mamã-tios-tia-avô-papá-tiaspolíticas-primos. Refiro-me ao facto de, apesar do fumo e das cores com que maquiavam a fachada familiar, dando-lhe uma aparência de normalidade, existir uma margem de vida real, num resquício aparentemente ténue, que se lhe pões a mão, se o observas, te suga. Empurra-te para a evasão, para o não pensamento, o não sentir, o não dizer, apenas imaginar, contemplar indiferente a barafunda, os castelos de taças de champagne, pudins e banquetes sobre os quais se erigiam casamentos, destinos e sonhos. No nãopassado não há medo. No nãopassado não há futuro, só imagens sedosas e odores que navegam através do teu corpo em cadenciadas vagas de calor. A casa dos meus pais era verde, imensa, elegante, de altos arcos e janelas de ferro forjado. A árvore do jardim crescia preguiçosamente, generosa e indiferente às recriminações da tia, maldizendo-a e recriminando a família por não amputar aquela fábrica de lixo e folhas secas. As tardes eram um céu ilimitado, como um esponjoso tanque cósmico cor de cenoura, remoinhos de vento salgado investiam no carro da papá ao entardecer, recordo as suas mãos fortes e cuidadas amparando as minhas mãos sobre o volante, as nuvens a descer sobre nós. Os meus amigos jogavam beisebol na rua, o mundo era grande e bom, era ainda possível caminhar com alegria pelas ruas, esperar a Rua Sésamo às quatro da tarde na televisão, formar um grupo com os meus amigos, apostando em quem veria primeiro a carrinha da pão, comprar montes de pãezinhos açucarados, amassá-los para depois os untar com creme e manteiga. Comprar guloseimas, muitas guloseimas de todas as cores, escondê-las entre os vasos, adorar a frescura da laje, a dança das translúcidas partículas de pó através da luz que se filtrava pela janela às três da tarde, o jornal Espectador todas as manhãs sobre o sofá da sala, o corredor escuro, os quartos interligados, a gata que se colava à cozinha a roubar comida. E a minha mãe, a esconder as suas jóias na roupa de inverno. Ter sete anos, a madrugada azul, a pancada na porta, o tio Alberto quer entrar, vai estrangular a sua irmã. A gata dorme entre as ferramentas do avô, ninguém a quer, mas volta sempre, entra pelas janelas, salta para a cama e toma o corredor de acesso à cozinha. É sonâmbula, de dia e de noite, dolente e saltitante, e insinua-se, apesar das portas estarem fechadas, apesar das janelas estarem fechadas. Assoma nos quartos e deixa recordações de merda na sala. A gata, a mãe gata que leva recém-nascidos pelados e sangrentos no focinho de telhado em telhado. Os vizinhos dizem que por culpa do parasita que se alimenta da sua pelagem a minha tia não engravida, mas a minha avó começou pela nona vez uma novena, e as novenas da minha avó funcionam, para o bem ou para o mal.
Os Rodríguez partiram há 15 anos da cidade. A árvore foi arrancada e a casa demolida. A minha avó senta-se sobre as três da tarde no jardim a cuidar do seu marido, murmura com voz ronronante com a tia Adriana como-se-nada-se-passasse. Em Bogotá também há relva, também há árvores e netos. Mas a tarde não é um infinito tanque cor de cenoura, não é sequer um charco amarelo, é a mesma tarde, a tarde de sempre que não passa, que não avança nem se desgasta, custou trinta anos de trabalho, um empréstimo bancário, muitas mentiras e os serviços de um prestigiado arquitecto. Uma tarde sem adjectivos, sem cheiros nem luz nos olhos, uma tarde seca, à qual não é necessário juntar nada.
A noite é perfeita, a noite é sempre perfeita. Agarro-me à certeza de que o universo é algo mais que um poço escuro, nele há um útero muito ajustado que unicamente conta, ao que parece, ter um corpo bonito e um pedaço de alma que dê brilho aos olhos. Durmo em mim, na minha cama, no meu corpo, na minha noite, no meu lugar, é cálido, pequeno, perigoso, dói tocá-lo, morre-se ao tocá-lo, não pertence a ninguém, pertence a si mesmo, e fará a vingança, estou segura. Sei que o meu quarto não é melhor nem pior que outros lugares, sei que a humanidade é igualmente inconsciente, igualmente besta, igualmente manipulável no céu e no inferno. Foi muito amarga a descoberta de que a vida na terra carece de sentido, que a nossa dor e a nossa angústia são indiferentes ao curso das estrelas. Somos bonecos de um sádico Deus enganador que se deleita a fazer-nos rasteiras, como uma criança que põe obstáculos a uma formiga, impedindo-a de se refugiar da chuva? A expressão "Deus assim o quis" ou "Deus escreve direito por linhas tortas", não é um sofisma para justificar a reconhecida incapacidade desse Deus para manejar com justiça as coisas do mundo? A terrível convicção de que Deus é um pobre e medíocre sádico incompetente, impõe a palavra acaso. Essa é a minha verdade, e não me faz mais feliz nem menos feliz, nem melhor nem pior pessoa, mas tenho as coisas claras e isso é suficiente. Não obstante, olha como está cheia esta igreja... Têm medo. Intensidade, não sabem que a chave está na intensidade: se vais fazer amor, fá-lo até sangrar; se odeias, que a tua força sepulte catedrais; se és uma folha ao vento, que a tua mediocridade seja um canto inacessível que inspire cânticos e sonatas.
Intensidade, a carícia profunda, a mão no seio, a boca, a humidade. Há carícias que valem e justificam toda uma vida. A pele é a única verdade. Maldita seja!. Que destino ganhámos, as criaturas condenadas a sentir tudo! ________________________________________
© Eva Durán © (Tradução) Amadeu Baptista
LA CASA DE ASTERIÓN ISSN: 0124 - 9282
Revista Trimestral de Estudios Literarios Volumen IV - Número 13 Abril-Mayo-Junio de 2003
SUPLEMENTO LITERARIO CARIBANÍA ISSN: 0124 - 9290
DEPARTAMENTO DE IDIOMAS FACULTAD DE CIENCIAS HUMANAS - FACULTAD DE EDUCACIÓN UNIVERSIDAD DEL ATLÁNTICO Barranquilla - Colombia
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É ASSIM, NÃO PODE SER DE OUTRA MANEIRA
Eva Durán Tradução de Amadeu Baptista
Oxalá pudéssemos aprender a ser felices pelo simples facto de estarmos vivos.
Oriana Fallaci
Veio-me a menstruação e estou chateada. Em dias como o de hoje, que em realidade são todos os dias da minha vida, mantenho uma relação de amor-ódio com o meu abdómen imenso e flácido. Às vezes penso, homem, não é assim tão mau, enquanto possa carregar e montar a bicicleta e ler a meu gosto tudo está bem. Uma das razões pela qual amo a vida moderna é que no fundo sou uma preguiçosa com pretensões burguesas, se fosse por mim as minhas noites, as minhas horas, os meus olhos e os meus dias só seriam ler, coçar a barriga, jogar atari, revolver as tripas do computador, torturar o gato (atirando-o ao tanque, deixando-o estrebuchar agonizante durante três ou quatro decisivos minutos), comprar o jornal, ignorar a secção económica, a secção política, os massacres do dia, submergir-me nas caricaturas, recortar delicadamente as suas margens, numerá-las, colá-las em cadernos, falar ao telefone e olhar pela janela.
- "Bem, isso está mal, filha, se não fazes um esforço não vais chegar a parte nenhuma, e vai-nos defraudar, não vais ser ninguém, não conseguirás dinheiro e não serás importante, não poderás comprar absolutamente nada, portanto serás um perigo para todos nós". Sempre pensei que o verdadeiro problema com as crianças não é que não tomem banho, nem que cheirem cola, nem faz grande diferença se fugiram de casa porque o papá lhes manuseava o entrepernas, a mamã os espetava com alfinetes, ou o avozinho punha sobre os seus lábios colheradas de malagueta. O verdadeiro conflito, o miolo (a verdade nua e crua), é que desfeiam a cidade, e além disso, são uma magnífica razão para que você e eu freqüentemos jantares de caridade, tirando dinheiro da caixa menor para tranquilizar a consciência. É que não são só feias, vulgares, mal-cheirosas, abjectas, desprezíveis, o pior de tudo é que caminham sempre à frente, estão em todos os lados. Malditas baratas repugnantes, anãs indesejáveis, carreira de tiro, cinzeiro, lixeira, cloaca, retrete, malditas, malditas. Engenhos malditos...A lei diz: Impõe a tua vontade e não fodas. Fode, mas fá-lo tão bem que os demais não tenham outra alternativa que temer-te ou respeitar-te, ou odiar-te tão intensamente que façam de ti um Deus ou um mártir. Falava do meu abdómen, o terrível em ser mulher é a pressão que te obriga a viver torturada para que a nossa aparência seja estética, como se diz?, glamorosa, mas não são glamorosos um penteado em forma de cona, as unhas por cortar, o mau odor, o sangue menstrual, as manchas solares e os pêlos na barriga das pernas, não, não e não, há que aplicar-se descolorante, depiladora, leite de limpeza, creme facial e tintura no cabelo. O meu abdómen é a minha consciência corporal, é gracioso e realmente fôfo, representa 6 ou 7 meses de gravidez no mínimo. Para dizer a verdade é uma das heranças da minha mãe. A minha bela e estúpida e masoquista mãe é realmente bela, estatura mediana, loira, um sinal no pescoço e outro em forma de dirigível na nádega esquerda. Se não fosse aquela barriga... Ela alega que é o produto de quatro gravidezes, mas bem, eu tenho igual número de abortos ( que doeram como o caralho) no meu prontuário e não é caso para tanto, ou é? desde que faço cem abdominais diários e bebo vinte e cinco copos de água, é horrível, realmente horrível. Eu sei que se fosse uma pessoa realmente importante e realmente valente não assumiria preocupações tão indignas, sei que as jantes que bamboleiam na minha cintura, as estrias, a celulite que sulca as minhas coxas como laranja mecânica, não tiram nem dão nada a ninguém. Fui magra e chupada e igualmente infeliz. Que doce apalpar o meu corpo em frente à pálida lua do armário da tia Adriana, para logo me deitar com a luz acesa para que o espectro que dormia junto a mim, e me não permitia conciliar o sono, não me atacasse de surpresa. Vigiava-me, possuía-me durante o sono, era uma massa informe, negra e gasosa, eu abandonava o meu corpo e saía a flutuar suspensa no céu liso, observando-me a mim mesma a dormir na cama, enquanto a coisa se revolvia sobre si preparando-se para abalançar-se sobre p meu pescoço. Abria os olhos e sentia a pressão na minha garganta. Os meus gritos despertavam a família, noite após noite. Assim é inútil fazer exercício como um atleta e ser anoréxica, se não posso dormir como Deus manda. Esta é apenas uma parte do problema, o cabelo caí-me às madeixas, tenho as mamas inchadas, uma dor menstrual intolerável, bronquite, catarro, gonorréia e cárie. Mas há um remédio para tudo isto, existem drogarias, lipo-sucções, odontólogos e comida para ratas. Mas não há nada, absolutamente nada que possa fazer para deixar de ser o que sou. Quem sou? Bem, sou Rodríguez, em princípio, o que dá no mesmo que ser filho dos colhões, ainda que se parta a alma à minha avó alegando e deitando mão da dignidade, do orgulho de pertencer a tão boa família. VAI À MERDA AVÓ. Antes de mais, e para que depois não digam que sou uma troca-tintas mal educada, tenho o prazer de apresentar a venerável matrona Dona Raquel Sucardi De Rodríguez. O seu casamento foi o que chamam os cronistas sociais "uma boda inolvidável". " Pelo dilúculo, a noiva empalideceu as rosas com a sua distinção louçã, e partilhou com os convidados a sua radiante felicidade, em união com o seu noivo, famoso e elegante cavalheiro de promissor futuro..." Foram (são) ompletamente desgraçados. O meu avô tem cancro da pele, está cego, neurótico. Mas claro, é uma desculpa excelente para que ela se auto-compadeça, não lhe permite aprender a valer-se por si mesmo, tem que viver para ele, para lamentar-se que lhe dói a anca, o hipotálamo e a tiróide, tem que dar banho ao marido, pôr-lhe talco Johnson nos testículos, injectá-lo, recolher pela casa toda pedaços de carne podre; educar um neto hiperactivo, vulgar e mal educado que faz partidas às meninas, e, ao mesmo tempo, permanecer composta para receber as visitas perante as quais é uma dama, digna, sacrificada, imaculada, com 12 filhos e um aborto às costas (o meu avô chegou uma madrugada bêbado com os amigos, ela tinha seis filhos varões e quatro meses de gestação, chovia, ele queria continuar a beber, a criadagem não estava, quis obrigá-la a sair para ir comprar bebida, empurrou-a pelas escadas abaixo, era uma menina, e dorme num frasco de formol, entre os pentes e a bijuteria de um armário feito à mão à quarenta e dois anos). A minha avó, sou dura com ela, e sei-o, mas uma mulher capaz de engendrar seres tão desprezíveis como os meus tios não merece nada diferente. Sentir compaixão por ela?, talvez: Se não me amam tenham pena de mim, não tenho culpa do meu marido me ter estafado, de que os meus filhos não me dêem cartões de crédito, eu fiz o que devia fazer, devia parir, ser fiel e preparar consoadas no natal, não viajei porque os meus filhos eram pequenos, não me diverti porque deviam encontrar a sua mãe ao chegarem a casa todas as noites, e quando estudavam até ao amanhecer deviam contar com um batido de amora e uma sanduíche preparada, além disso, uma mulher separada é mal vista, eu cumpri perante Deus e perante os homens, devia dar o exemplo à minha filha, devia resguardá-la dos homens, dar instrucções aos seus irmãos para que a mantivessem vigiada, porque ela é a mais nova, a consentida, e tinha que a casar bem, e para encontrar um bom marido devia ter uma boa reputação, ser educada e discreta, e a educação só a dão as freiras, porque o temor a Deus é a base de uma vida boa, e há que temê-lo e servi-lo, porque senão põe-se bravo connosco e tira-nos o dinheiro. E havia que ensinar-lhe que todos os homens são iguais, que todos a farão sofrer por igual, e que é preferível sofrer na abundância que a coser roupa a cinco ranhosos e um marido bêbado, por isso há que espantar-lhe esses namorados que arranja, que são uns medíocres-comunistas-classe-média, sim, senhor, porque a minha filha tem entre as suas pernas a honra da família e os meus filhos são uns piças loucas, mas isso está bem, para isso são homens, para isso são bonitos e estão bem alimentados e profissionais além das marcas, mas isso sim, que essas arrivistas que sobem nos seus carros que nem se benzam. Que eles vão casar com aristocratas, nem mais faltava..." É insuportável viver com a amarga verdade de onde venho. Injectaram-me o veneno muito pequena, transmitiram-me o seu sangue mau, o seu ódio, a sua desconfiança. São os seres mais hipócritas que se pode conceber, sem chegarem a ser brilhantes, religiosos até ao sofrimento. Lembro o tio Bóris, um homem sinceramente piedoso e entregue à verdade suprema, esteve sindicalizado na fraude quando ocupava um alto cargo na área administrativa do congresso da República e, consta-me,que uma das suas orações habituais é a que pede pela saúde espiritual dos que o quiseram pô-lo no lugar onde deveria estar, não porque fosse culpado, carece de iniciativa para fazer esse tipo de bons negócios, mas um homem com tão ardentes desejos de ser bom precisa de ser martirizado para alcançar a perfeição, uma respeitável temporada na cadeia modelo, uma volta pelos mais baixos labirintos da abjecção humana teriam dado à sua oração, estou segura, uma paixão infinita, a sua santa palavra ascenderia via módem aos anjos e aos arcanjos, e ele perdoaria aos seus detractores, é tão bom, tão bom filho, tão bom esposo, mas está terrível, definitiva, irremediável e eternamente morto, vermes cor-de-rosa incubam nas artérias do seu coração. No entanto, tudo nele tem uma auréola de bem-estar, os seus peidos são o acompanhamento perfeito do "eu pecador". Numa dada altura tentou instilar-me os seus preconceitos, o seu ressentimento, a sua Católica Prepotência. Mas eu nunca lhes pertenci. E é compreensível que não me perdoarão, você fá-lo-ia? Não é de todo mau crescer entre psicóticos, não só por a mamã ter o hábito de partir coisas na cabeça do papá, mas pelas discussões catastróficas que estremeciam as paredes e provocavam os cochichos dos criados e eram protagonizadas indistintamente mamã-tios-tia-avô-papá-tiaspolíticas-primos. Refiro-me ao facto de, apesar do fumo e das cores com que maquiavam a fachada familiar, dando-lhe uma aparência de normalidade, existir uma margem de vida real, num resquício aparentemente ténue, que se lhe pões a mão, se o observas, te suga. Empurra-te para a evasão, para o não pensamento, o não sentir, o não dizer, apenas imaginar, contemplar indiferente a barafunda, os castelos de taças de champagne, pudins e banquetes sobre os quais se erigiam casamentos, destinos e sonhos. No nãopassado não há medo. No nãopassado não há futuro, só imagens sedosas e odores que navegam através do teu corpo em cadenciadas vagas de calor. A casa dos meus pais era verde, imensa, elegante, de altos arcos e janelas de ferro forjado. A árvore do jardim crescia preguiçosamente, generosa e indiferente às recriminações da tia, maldizendo-a e recriminando a família por não amputar aquela fábrica de lixo e folhas secas. As tardes eram um céu ilimitado, como um esponjoso tanque cósmico cor de cenoura, remoinhos de vento salgado investiam no carro da papá ao entardecer, recordo as suas mãos fortes e cuidadas amparando as minhas mãos sobre o volante, as nuvens a descer sobre nós. Os meus amigos jogavam beisebol na rua, o mundo era grande e bom, era ainda possível caminhar com alegria pelas ruas, esperar a Rua Sésamo às quatro da tarde na televisão, formar um grupo com os meus amigos, apostando em quem veria primeiro a carrinha da pão, comprar montes de pãezinhos açucarados, amassá-los para depois os untar com creme e manteiga. Comprar guloseimas, muitas guloseimas de todas as cores, escondê-las entre os vasos, adorar a frescura da laje, a dança das translúcidas partículas de pó através da luz que se filtrava pela janela às três da tarde, o jornal Espectador todas as manhãs sobre o sofá da sala, o corredor escuro, os quartos interligados, a gata que se colava à cozinha a roubar comida. E a minha mãe, a esconder as suas jóias na roupa de inverno. Ter sete anos, a madrugada azul, a pancada na porta, o tio Alberto quer entrar, vai estrangular a sua irmã. A gata dorme entre as ferramentas do avô, ninguém a quer, mas volta sempre, entra pelas janelas, salta para a cama e toma o corredor de acesso à cozinha. É sonâmbula, de dia e de noite, dolente e saltitante, e insinua-se, apesar das portas estarem fechadas, apesar das janelas estarem fechadas. Assoma nos quartos e deixa recordações de merda na sala. A gata, a mãe gata que leva recém-nascidos pelados e sangrentos no focinho de telhado em telhado. Os vizinhos dizem que por culpa do parasita que se alimenta da sua pelagem a minha tia não engravida, mas a minha avó começou pela nona vez uma novena, e as novenas da minha avó funcionam, para o bem ou para o mal.
Os Rodríguez partiram há 15 anos da cidade. A árvore foi arrancada e a casa demolida. A minha avó senta-se sobre as três da tarde no jardim a cuidar do seu marido, murmura com voz ronronante com a tia Adriana como-se-nada-se-passasse. Em Bogotá também há relva, também há árvores e netos. Mas a tarde não é um infinito tanque cor de cenoura, não é sequer um charco amarelo, é a mesma tarde, a tarde de sempre que não passa, que não avança nem se desgasta, custou trinta anos de trabalho, um empréstimo bancário, muitas mentiras e os serviços de um prestigiado arquitecto. Uma tarde sem adjectivos, sem cheiros nem luz nos olhos, uma tarde seca, à qual não é necessário juntar nada.
A noite é perfeita, a noite é sempre perfeita. Agarro-me à certeza de que o universo é algo mais que um poço escuro, nele há um útero muito ajustado que unicamente conta, ao que parece, ter um corpo bonito e um pedaço de alma que dê brilho aos olhos. Durmo em mim, na minha cama, no meu corpo, na minha noite, no meu lugar, é cálido, pequeno, perigoso, dói tocá-lo, morre-se ao tocá-lo, não pertence a ninguém, pertence a si mesmo, e fará a vingança, estou segura. Sei que o meu quarto não é melhor nem pior que outros lugares, sei que a humanidade é igualmente inconsciente, igualmente besta, igualmente manipulável no céu e no inferno. Foi muito amarga a descoberta de que a vida na terra carece de sentido, que a nossa dor e a nossa angústia são indiferentes ao curso das estrelas. Somos bonecos de um sádico Deus enganador que se deleita a fazer-nos rasteiras, como uma criança que põe obstáculos a uma formiga, impedindo-a de se refugiar da chuva? A expressão "Deus assim o quis" ou "Deus escreve direito por linhas tortas", não é um sofisma para justificar a reconhecida incapacidade desse Deus para manejar com justiça as coisas do mundo? A terrível convicção de que Deus é um pobre e medíocre sádico incompetente, impõe a palavra acaso. Essa é a minha verdade, e não me faz mais feliz nem menos feliz, nem melhor nem pior pessoa, mas tenho as coisas claras e isso é suficiente. Não obstante, olha como está cheia esta igreja... Têm medo. Intensidade, não sabem que a chave está na intensidade: se vais fazer amor, fá-lo até sangrar; se odeias, que a tua força sepulte catedrais; se és uma folha ao vento, que a tua mediocridade seja um canto inacessível que inspire cânticos e sonatas.
Intensidade, a carícia profunda, a mão no seio, a boca, a humidade. Há carícias que valem e justificam toda uma vida. A pele é a única verdade. Maldita seja!. Que destino ganhámos, as criaturas condenadas a sentir tudo! ________________________________________
© Eva Durán © (Tradução) Amadeu Baptista
LA CASA DE ASTERIÓN ISSN: 0124 - 9282
Revista Trimestral de Estudios Literarios Volumen IV - Número 13 Abril-Mayo-Junio de 2003
SUPLEMENTO LITERARIO CARIBANÍA ISSN: 0124 - 9290
DEPARTAMENTO DE IDIOMAS FACULTAD DE CIENCIAS HUMANAS - FACULTAD DE EDUCACIÓN UNIVERSIDAD DEL ATLÁNTICO Barranquilla - Colombia
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