ANTROPOMETRIA

Jorge Lucio de Campos



          a Yves Klein

          O quarto ficava a alguns passos do nada onde, em atletismos curtos, o sol trincava as paredes mal pintadas.

          Havia mais sombra que luz. Um semblante de cansaço que nos fez sofrer.

          Ela tirou da bolsa uma navalha e pediu-me que a cortasse. Uma estranha sensação começou então a retinir.

          Conforme a lâmina agia, a pele esticava, tentando compensar, em vão, a falta de estofo. Em nenhum momento, contudo, pediu-me arrego.

          Já perto dos quadris, estoquei mais fundo. Antes que a enchesse de dor, uma borboleta trêmula cruzou o ar bem à frente: "Estou conseguindo!"

          À medida que se fendia, ela mudava. Atendendo a meus caprichos, virou, de relance, um paletó, um urinol, uma capa de chuva...

          O zíper desengatou-se e, por um instante apenas, conheci seu auge. Um dedo, um punho, um braço inteiro se desfez dentro dela.

          Ficaram, sob as unhas, os trapos daquele dia.


          ABRAÇAR ORDENHAR ALEITAR

          Visão que se impõe, a dos amantes. Após o coito  garbosos como nunca  ainda trocam carícias. Mesmo sem estarem prontos, brincam, respiram o mesmo ar (ao mesmo tempo), sabendo que, cumprido o ritual, haverá sempre a chance do retorno: num pulsar ou piparote, enfim, em algo que os traga à tona.
Nada mais difícil do que amar, contudo. No fim de cada assombro, deverão ficar em silêncio, não porque estejam certos ou errados (ou aguçados seus ouvidos). Na orla da tarde  alfarrobas zonzas e, em certa medida, na usura do dia  uma vez mais se sufocam e perecíveis soçobram; ordinários, feios, hiantes se arrogam.



          OS DIAS GIGANTESCOS

          a René Magritte

          Houve uma ocasião na vida em que me iludi com o mundo e acreditei em seu bom acabamento. Isso porque o observava de longe e, de minha janela, não me dava conta da inconsistência dos rios, nuvens e montanhas.
Contudo, à medida que amadureci, pude notar que, ao redor, havia apenas uma obra inacabada, ainda muito longe de uma eficaz solução. De lá pra cá, tal sentimento, infelizmente, só vem se reforçando.
Agora mesmo, ao caminhar por aí, meus olhos  hoje tão detalhistas  logo percebem que imperceptíveis vigas sustentam as coisas num equilíbrio improvável. E que, vindo de todos os lados, inúmeras galerias se cruzam, sendo que, ao fim de cada uma, centenas de outras conduzem a tantas mais.
Creio que passarei o resto dos dias tentando esquematizá-las. Certo de que há uma saída  e de que há muito a fazer em relação a ela  impus a mim mesmo a tarefa de sabotar, no jogo do eterno e do infinito dessas galerias, quantas vigas puder.
Quem sabe assim desmascare a farsa do mundo e alguém se habilite a rematá-lo... Quem sabe assim  quiçá na derradeira chance  as partes possam conceber um todo.



          MIGRACIÓN MODERNA DEL ESPÍRITO

          a José Clemente Orozco

          Delante de las tiniebras que toman de asalto mi vida, no veo otra alternativa que brillar intensamente. Pues es así que las cosas son: por más que usted se empeñe en un acto de inútil apagamiento o mimetismo de las pistas, lo que brilla es lo que cuenta, sea un cualquier o mismo el sol o la luna o un escarabajo en medio tono o la brisa herrumbrada que nos llena la piel de garabatos o los espacios entre los astros dibujando un nuevo cielo fosforescente.

          Por eso, de ahora en delante, trataré de reunirme a ellos: me expondré sistematicamente a la luz, de modo a incorporarla a mi mismo. O mejor: tentaré fabricar la mia propia, expulsar de mi lo que es negro y, inebriado por la nueva condición, hacer vaticinios, dar declaraciones bombásticas, volver a trazar el curso de la historia y eso bien antes de tornarme prisionero de mi factoide, de mostrar como es fatal el brillo forjado.


          COMO AGUA EN AGUA
                                               Segunda versión

          a Jorge Luis Borges

          La madrugada en Dynnik acostumbraba ser impiedosa. Por lo que dicen, en ella todo congela: hasta los humores más íntimos, mismo los mocos y las lágrimas... Lo que significa decir que llorar para los nórdicos de aquel lugar es una acción inútil, un verdadero desperdicio si el hecho que lo motive fuere nocturno.

          Cuando fuimos para la cama, ya habíamos hecho el amor seguidas veces en el  jardin de invierno, en la sala de estar, en la cocina... Después de tomar algunos tragos de ginebra y conversar un poco sobre la vida, notamos que anochecía y desnudos, como estábamos, percebimos lo cuanto eso era amenazante.

          Puse sobre nuestros hombros una piel de armiño que yo comprara en la quermese de Kragerö. Nos acostamos de lado de modo a vislumbrar, por la ventana, el monte Yunni que, en aquella época, solía estar más albo que nunca, verberando en el painel de la noche. Comenzé a besar, suavemente, su nuca y sus espaldas y, a cierta altura, volviendo su rostro hacia mi, contemplé su mirada eslava, asustadoramente azul.

          Y fue así que adormecemos acompañando el movimiento pendular de la luna. Era posible sentir que ella descendía, despacio pero decididamente, sobre el villaje como una grande esponja a sorber todo el blanco viable de existir allí: lo de nuestros dientes, lo de nuestras uñas, lo del propio tapete de nieve que se extendia, indefinidamente, a lo inesperado de las montañas.

          Sólo en la mañana siguiente es que nuestros cuerpos, endurecidos y quebradizos, fueran hallados. Estaban tan firmemente encajados un en el otro que no se conseguió separarlos en una primera o segunda tentativas. A ejemplo de nuestros ojos  que aún se miraban  los corazones también batían, quizá tentando decir algo sobre aquella noche inolvidable. Palabras dulces, pero silentes. Imposible saber cuales eran...


          DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS:

          Nascido no Rio de Janeiro em 15 de setembro de 1958, formou-se em Filosofia, em 1981, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) onde ainda cursou (de 1982 a 1996) o Mestrado (Estética) em Filosofia, o Doutorado e um Pós-Doutorado (História dos Sistemas de Pensamento) em Comunicação e Cultura. É Professor de Teoria e Crítica da Comunicação e da Cultura, de Estética e de Teoria da Arte Contemporânea na Escola Superior de Desenho Industrial  (ESDI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e consultor ad hoc (assessor técnico-científico) da FAPERJ. Como ensaísta, publicou, além dos verbetes relativos à arte brasileira do Dicionário Oxford de Arte, de Ian Chilvers, Harold Osborne e Dennis Farr (Martins Fontes, 1996), os livros Do Simbólico ao Virtual: A Representação do Espaço em Panofsky e Francastel (Perspectiva/EdUERJ, 1990) e A Vertigem da Maneira: Pintura e Vanguarda nos Anos 80 (Diadorim/EdUERJ, 1994), relançado como A Vertigem da Maneira: Pintura e Pós-vanguarda na Década de 80 (Revan, 2002). Como poeta, publicou as coletâneas Arcangelo (EdUERJ, 1991), Speculum (EdUERJ, 1993), Belveder (Diadorim/UNESA, 1994), A Dor da Linguagem (Sette Letras, 1996), À Maneira Negra (Sette Letras, 1997) e tem, inéditas, Lição de Alvura, Ausência de Lis, Abraçar Ordenhar Aleitar, Devoração e Palimpsestos. Possui uma página na internet onde disponibiliza parte substancial de sua produção ensaístico-literária:
________________________________________

©   Jorge Lucio de Campos

LA CASA DE ASTERIÓN
ISSN:  0124 - 9282

Revista Trimestral de Estudios Literarios
Volumen IV - Número 13
Abril-Mayo-Junio de 2003

SUPLEMENTO LITERARIO CARIBANÍA
ISSN: 0124 - 9290

DEPARTAMENTO DE IDIOMAS
FACULTAD DE CIENCIAS HUMANAS - FACULTAD DE EDUCACIÓN
UNIVERSIDAD DEL ATLÁNTICO
Barranquilla - Colombia

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ANTROPOMETRIA

Jorge Lucio de Campos



          a Yves Klein

          O quarto ficava a alguns passos do nada onde, em atletismos curtos, o sol trincava as paredes mal pintadas.

          Havia mais sombra que luz. Um semblante de cansaço que nos fez sofrer.

          Ela tirou da bolsa uma navalha e pediu-me que a cortasse. Uma estranha sensação começou então a retinir.

          Conforme a lâmina agia, a pele esticava, tentando compensar, em vão, a falta de estofo. Em nenhum momento, contudo, pediu-me arrego.

          Já perto dos quadris, estoquei mais fundo. Antes que a enchesse de dor, uma borboleta trêmula cruzou o ar bem à frente: "Estou conseguindo!"

          À medida que se fendia, ela mudava. Atendendo a meus caprichos, virou, de relance, um paletó, um urinol, uma capa de chuva...

          O zíper desengatou-se e, por um instante apenas, conheci seu auge. Um dedo, um punho, um braço inteiro se desfez dentro dela.

          Ficaram, sob as unhas, os trapos daquele dia.


          ABRAÇAR ORDENHAR ALEITAR

          Visão que se impõe, a dos amantes. Após o coito  garbosos como nunca  ainda trocam carícias. Mesmo sem estarem prontos, brincam, respiram o mesmo ar (ao mesmo tempo), sabendo que, cumprido o ritual, haverá sempre a chance do retorno: num pulsar ou piparote, enfim, em algo que os traga à tona.
Nada mais difícil do que amar, contudo. No fim de cada assombro, deverão ficar em silêncio, não porque estejam certos ou errados (ou aguçados seus ouvidos). Na orla da tarde  alfarrobas zonzas e, em certa medida, na usura do dia  uma vez mais se sufocam e perecíveis soçobram; ordinários, feios, hiantes se arrogam.



          OS DIAS GIGANTESCOS

          a René Magritte

          Houve uma ocasião na vida em que me iludi com o mundo e acreditei em seu bom acabamento. Isso porque o observava de longe e, de minha janela, não me dava conta da inconsistência dos rios, nuvens e montanhas.
Contudo, à medida que amadureci, pude notar que, ao redor, havia apenas uma obra inacabada, ainda muito longe de uma eficaz solução. De lá pra cá, tal sentimento, infelizmente, só vem se reforçando.
Agora mesmo, ao caminhar por aí, meus olhos  hoje tão detalhistas  logo percebem que imperceptíveis vigas sustentam as coisas num equilíbrio improvável. E que, vindo de todos os lados, inúmeras galerias se cruzam, sendo que, ao fim de cada uma, centenas de outras conduzem a tantas mais.
Creio que passarei o resto dos dias tentando esquematizá-las. Certo de que há uma saída  e de que há muito a fazer em relação a ela  impus a mim mesmo a tarefa de sabotar, no jogo do eterno e do infinito dessas galerias, quantas vigas puder.
Quem sabe assim desmascare a farsa do mundo e alguém se habilite a rematá-lo... Quem sabe assim  quiçá na derradeira chance  as partes possam conceber um todo.



          MIGRACIÓN MODERNA DEL ESPÍRITO

          a José Clemente Orozco

          Delante de las tiniebras que toman de asalto mi vida, no veo otra alternativa que brillar intensamente. Pues es así que las cosas son: por más que usted se empeñe en un acto de inútil apagamiento o mimetismo de las pistas, lo que brilla es lo que cuenta, sea un cualquier o mismo el sol o la luna o un escarabajo en medio tono o la brisa herrumbrada que nos llena la piel de garabatos o los espacios entre los astros dibujando un nuevo cielo fosforescente.

          Por eso, de ahora en delante, trataré de reunirme a ellos: me expondré sistematicamente a la luz, de modo a incorporarla a mi mismo. O mejor: tentaré fabricar la mia propia, expulsar de mi lo que es negro y, inebriado por la nueva condición, hacer vaticinios, dar declaraciones bombásticas, volver a trazar el curso de la historia y eso bien antes de tornarme prisionero de mi factoide, de mostrar como es fatal el brillo forjado.


          COMO AGUA EN AGUA
                                               Segunda versión

          a Jorge Luis Borges

          La madrugada en Dynnik acostumbraba ser impiedosa. Por lo que dicen, en ella todo congela: hasta los humores más íntimos, mismo los mocos y las lágrimas... Lo que significa decir que llorar para los nórdicos de aquel lugar es una acción inútil, un verdadero desperdicio si el hecho que lo motive fuere nocturno.

          Cuando fuimos para la cama, ya habíamos hecho el amor seguidas veces en el  jardin de invierno, en la sala de estar, en la cocina... Después de tomar algunos tragos de ginebra y conversar un poco sobre la vida, notamos que anochecía y desnudos, como estábamos, percebimos lo cuanto eso era amenazante.

          Puse sobre nuestros hombros una piel de armiño que yo comprara en la quermese de Kragerö. Nos acostamos de lado de modo a vislumbrar, por la ventana, el monte Yunni que, en aquella época, solía estar más albo que nunca, verberando en el painel de la noche. Comenzé a besar, suavemente, su nuca y sus espaldas y, a cierta altura, volviendo su rostro hacia mi, contemplé su mirada eslava, asustadoramente azul.

          Y fue así que adormecemos acompañando el movimiento pendular de la luna. Era posible sentir que ella descendía, despacio pero decididamente, sobre el villaje como una grande esponja a sorber todo el blanco viable de existir allí: lo de nuestros dientes, lo de nuestras uñas, lo del propio tapete de nieve que se extendia, indefinidamente, a lo inesperado de las montañas.

          Sólo en la mañana siguiente es que nuestros cuerpos, endurecidos y quebradizos, fueran hallados. Estaban tan firmemente encajados un en el otro que no se conseguió separarlos en una primera o segunda tentativas. A ejemplo de nuestros ojos  que aún se miraban  los corazones también batían, quizá tentando decir algo sobre aquella noche inolvidable. Palabras dulces, pero silentes. Imposible saber cuales eran...


          DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS:

          Nascido no Rio de Janeiro em 15 de setembro de 1958, formou-se em Filosofia, em 1981, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) onde ainda cursou (de 1982 a 1996) o Mestrado (Estética) em Filosofia, o Doutorado e um Pós-Doutorado (História dos Sistemas de Pensamento) em Comunicação e Cultura. É Professor de Teoria e Crítica da Comunicação e da Cultura, de Estética e de Teoria da Arte Contemporânea na Escola Superior de Desenho Industrial  (ESDI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e consultor ad hoc (assessor técnico-científico) da FAPERJ. Como ensaísta, publicou, além dos verbetes relativos à arte brasileira do Dicionário Oxford de Arte, de Ian Chilvers, Harold Osborne e Dennis Farr (Martins Fontes, 1996), os livros Do Simbólico ao Virtual: A Representação do Espaço em Panofsky e Francastel (Perspectiva/EdUERJ, 1990) e A Vertigem da Maneira: Pintura e Vanguarda nos Anos 80 (Diadorim/EdUERJ, 1994), relançado como A Vertigem da Maneira: Pintura e Pós-vanguarda na Década de 80 (Revan, 2002). Como poeta, publicou as coletâneas Arcangelo (EdUERJ, 1991), Speculum (EdUERJ, 1993), Belveder (Diadorim/UNESA, 1994), A Dor da Linguagem (Sette Letras, 1996), À Maneira Negra (Sette Letras, 1997) e tem, inéditas, Lição de Alvura, Ausência de Lis, Abraçar Ordenhar Aleitar, Devoração e Palimpsestos. Possui uma página na internet onde disponibiliza parte substancial de sua produção ensaístico-literária:
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©   Jorge Lucio de Campos

LA CASA DE ASTERIÓN
ISSN:  0124 - 9282

Revista Trimestral de Estudios Literarios
Volumen IV - Número 13
Abril-Mayo-Junio de 2003

SUPLEMENTO LITERARIO CARIBANÍA
ISSN: 0124 - 9290

DEPARTAMENTO DE IDIOMAS
FACULTAD DE CIENCIAS HUMANAS - FACULTAD DE EDUCACIÓN
UNIVERSIDAD DEL ATLÁNTICO
Barranquilla - Colombia

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